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O Pantanal não é aqui. E a copa não deve ser nossa

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Sol a pino em fevereiro. Ônibus lotados, postos de saúde sem atendimento, segurança precária. Mas ninguém se lembra disso, pois o que importa é a Copa que nem veio ainda....

Sol a pino em fevereiro. Ônibus lotados, postos de saúde sem atendimento, segurança precária. Mas ninguém se lembra disso, pois o que importa é a Copa que nem veio ainda….

O Brasil foi anotado há algum tempo, como a sede da Copa do Mundo de Futebol da FIFA de 2014. Daqui até lá tem-se cinco anos para que se faça alguma coisa até o apito e o pontapé inicial da primeira partida.

Até o momento, porém, nada de efetivo efetivamente tem sido feito. Muito mal tem-se a logomarca do evento, que lembra muito alguma outra logo já usada na candidatura do Brasil ou de algum outro dos mais de 200 países reconhecidos pela ONU para sediar algum evento esportivo muito grande.

No início de fevereiro deste ano uma comissão composta por representantes da FIFA e da CBF além claro dos pux…, digo, representantes políticos de nossa distinta sociedade estiveram em visita à Campo Grande para inspeção na infra-estrutura da cidade, que é pretensa candidata a ser sede de algum dos pelo menos 20 jogos da Copa.

Este que vos escreve nem Campo-Grandense é. Mas reside aqui praticamente desde que ainda mal fazia sombra, o que faz de mim, de certa forma, um habitante de dupla cidadania campo-grandense / douradense. E como um observador do front, o que vi por uma meia dúzia de ruas do centro desta capital foi uma mostra de higienismo e outras tantas coisas pra inglês ver. Ou pra membros da FIFA verem.

Na principal avenida da cidade, a Afonso Pena, o que se ouvia além do escarcéu de buzinas e sirenes da comitiva (que não era de gado) era o que se via: uma montueira de gente e coisas parecidas (leia-se aqui políticos e outros tipos igualmente úteis) acompanhando os distintos avaliadores da Fifa. Segundo o que foi dito num telejornal, parte dos avaliadores seguiu de helicóptero para sobrevoar a cidade e observar as condições de tráfego e outra seguiu pelas ruas pra ver a mentirada, digo, a festa organizada (uma palavra forte “organizada”, para o que aconteceu) para impressioná-los.

O trajeto foi deveras interessante: a extensão da Av. Afonso Pena toda cag…, digo “enfeitada” com faixas de cima abaixo dos postes de iluminação com a menção “O Pantanal é aqui e a Copa é nossa”. Em alguns casos, até faixas com a explícita -e desnecessária- menção de apoio de senadores e vereadores ao pretenso evento esportivo. Fechando o espetáculo a meu ver deprimente, uma multidão se acotovelando vestida de roupas verdes e amarelas para impressionar os tais inspetores. Isso tudo à plena tarde de uma semana que em dias considerados normais costuma ser de trabalho.

Contrariando aquele mundaréu de gente que estava lá sacudindo bandeiras sem saber direito pra quê e que com certeza pragueja contra o país representado naquelas bandeiras e que mais que isso, sequer lembra em quem votou na última eleição (mesmo ela tendo sido apenas para dois cargos), estou eu aqui, que sou contra a escolha de Campo Grande para sediar os jogos da Copa do Mundo de 2014.

E por que sou contra?

Por que creio que um passeio de estrangeiros por apenas uma das ruas da cidade não é suficiente pra analisar e decidir sobre o que quer seja, quanto mais por infra-estrutura.

Por que vejo que refazer a pintura de sinalização horizontal, poda de gramados e limpeza pública de uma só avenida pode impressionar a uma meia dúzia de gringos, mas não me convence. Nem deve ter convencido algum outro habitante dessa cidade fora eu.

Por que essa foi uma típica ação para “inglês ver”, sem perdão para trocadilho.

Por que para uma cidade se candidatar a ser sede de Copa, é preciso que esta cidade tenha infra-estrutura de transportes. E Campo Grande não tem, já que aqui está o trânsito mais violento do Brasil. E aqui temos uma das passagens de transporte público mais cara do país. E que aqui, ônibus só até as 23h15. Que sequer temos uma estação rodoviária para receber os torcedores que vierem por nossas estradas. Nem aeroporto ao certo temos, já que este é o unico nas capitais a ter uma única sala de embarque/portão e que facilmente fica lotado. O que dizer então quando tiver algum jogo de futebol por aqui?

Por que esta cidade não tem infra-estrutura de hotéis pra receber tanta gente, nem segurança pública sequer para sua população. Hoje, em dias normais, ao se ter a infelicidade de solicitar atendimento via 190, o incauto habitante pode esperar até 50 minutos por atendimento, dependendo de onde morar. E atender uma ocorrência não significa resolver o que quer que seja. Imagine num dia de jogo, reforço no policiamento na partida e a cidade às moscas, um prato mais do que cheio para a bandidagem deitar e rolar em total tranqüilidade.

Por que o que o povo dessas terras precisa é de governantes sérios de verdade. E não factóides que apenas dão as caras em manobras eleitoreiras como este mal-fadado teatro canastrão para levar no bico e talvez de outras formas um punhado de estrangeiros.

E por que o Pantanal está bem longe daqui. Bem longe mesmo…

Fonte da foto:Fonte: http://www.capitalnews.com.br.
Tou no twitter: http://www.twitter.com/francelino. Leia e link.
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Written by Francelino

03/03/2009 at 13:50